Tempo - Tutiempo.net

Brunch With...Ricardo Guerra

Um produtor de bebidas destiladas, que ousou acreditar em Angola, acima de tudo ama o que faz. Conheça a história de vida do empreendedor que se dedica basicamente à cultura da cana de açúcar.

Luanda /
08 Abr 2019 / 10:29 H.

Nasceu em Portugal, na região Demarcada do Douro, onde se produz o vinho do Porto. Está em Angola há nove anos, três em Luanda e os outros no Lobito sempre como empreendedor.

A sua infância foi passada no Douro, junto do Rio e da terra rodeada de vinhas que era a maior fonte de rendimento daquela região. O culminar do seu ofício herdou do avô materno, produtor armazenista de vinhos, e da parte paterna, angolano, que era engenheiro do Instituto Nacional de Estradas de Angola (INEA) no Bié.

Desde pequeno que lhe era contado histórias da abertura das estradas, durante a época colonial, por isso, bem cedo se tornou evidente a curiosidade, que se acentuou numa paixão pela terra de Angola, pela comida e pela produção.

Sobre os desafios de viver em Angola, Ricardo descreve que não é para todos, como diz: porque em Angola às vezes, o fácil se torna difícil e o difícil parece ser mais fácil.

“A questão é que nem todos estão preparados para abdicar do fácil, de uma forma tão ligeira, desistem ou se acomodam, pode até parecer clichet, mas Angola ou se ama ou se detesta”, refere.

Pelo tempo que vive em Angola, conhece já algumas províncias, tendo a oportunidade de viajar muito pelo interior para o que denomina por “dentro da realidade da Angola profunda’’, acrescenta.

Para o nosso convidado desta edição, ser empreendedor em Angola há dez anos foi mais compensador e motivante, mas hoje acredita que tem de ser criativo e resiliente aos tempos que nos pedem para ser comedidos, rigorosos e eficientes no que se faz.

“A margem de erro para os empresários diminuiu drasticamente o que é bom, porque nos obriga a sermos melhores’’, comenta.

Da biotecnia ao aguardente Caxaramba

Depois de passar pelo curso de Engenharia Biotecnológica, em Bragança, Portugal, Ricardo Guerra torna-se pai. O aparecimento do seu primeiro filho obrigou-lhe a trabalhar, mas já sabia o que iria fazer. Optou pela produção de vinhos, onde criou marcas e pegou-lhe o gosto, por isso, pediu transferência para o curso de Enologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Com as primeiras marcas de vinhos, criou uma empresa de distribuição de vinhos, que hoje em dia são distribuídos não só em Angola, mas também noutros Países.

Depois de dez anos dedicados ao vinho, teve a ambição de querer crescer mais. Mas noutro contexto, as ligações familiares com Angola fizeram-lhe apanhar o avião para Luanda, onde passou o natal de 2010.

‘‘O meu Padrasto que nunca deixou Angola, natural do Bié, dizia-me sempre num tom carinhoso. — Tu estás bem aí na Quinta a produzir o nosso vinho. Eu dizia-lhe: — Quero é ir para aí produzir. — Por acaso não queres investir em mais umas barricas para envelhecer a Caxaramba? Olha que te dá mais dinheiro que o Banco, contou sorrindo.

Em Angola, Caxaramba, como também é conhecido, começou por comercializar os seus vinhos e de outros produtores do Douro, Portugal. Mas não eram só vinhos, importava também contentores de cerveja.

Se Luanda foi o ponto de partida, encantado por Lobito fez daí a sua casa permanente e realizou o sonho. O sonho de fazer e acontecer, ou seja, criou uma marca made in Angola e como resultado disso fundou a empresa que hoje dá pelo nome ‘‘Caxaramba’’, que quer dizer Aguardente de Cana.

Defende que sempre foi muito certinho, trabalhou sempre com bebidas alcoólicas desde produção à distribuição, mas acredita de igual modo, que esta dedicação lhe mantém os pés no chão e a perspectiva do negócio.

Conhecer Benguela pela cultura da cana-de-açúcar

O nosso convidado não se imagina a viver noutro lugar que não seja Angola. Ele quer ajudar as pessoas a conhecer a região de Benguela, através da cultura da cana-de-açúcar e da produção da aguardente do Lobito.

“Que os lotes de aguardente de cana que transformamos hoje sejam guardados para as gerações futuras, pois só vendemos um terço do que produzimos”, declara. O objectivo de Ricardo é de à curto prazo contribuir para a diminuição dos milhões de litros que são importados todos os anos, face a qualidade do produto que elabora.

Tem como modelo de vida a descrição sobre o respeito pelo próximo, a paixão pela profissão, valorização da família e amor à terra, assim como a admiração pelos que trabalham.

O empreendedor confessa que o momento mais alto da sua vida foi aos 20 anos de idade quando nasce o seu primeiro filho. Mas acredita também que, quando se aposta numa carreira e com motivação, os melhores momentos ainda estão para vir.

“Mas tenho dois momentos que podem não ser os maiores, mas são os mais marcantes, primeiro quando produzi o primeiro vinho do Porto e o segundo quando fiz a primeira experiência com a cana da Catumbela’’ regozijou-se.

Adepto de leituras, o produtor de bebidas recomenda, a obra ‘‘Le Petit Prince de Saint Exupery’’, talvez por ainda o ter lido muito jovem e tê-lo sido oferecido por alguém muito especial. “É sem dúvida um livro que todos deveriam ler, a grandeza da vida está na simplicidade da mesma e a diferença está no detalhe e no pormenor”, repara.

Quanto a situação actual do País, é de opinião que seja preciso investir forte na educação de base, o ensino profissional deveria ser uma prioridade para formar quadros nacionais nas várias áreas e não estar tão dependentes no futuro. “Não temos de ser todos doutores e engenheiros, temos sim de ser bons profissionais e empreendedores nas diferentes áreas”, comenta. Caxaramba acredita que os tempos continuam a ser de esperança, nota que a credibilidade internacional está a conquistar-se e para isso as pessoas devem aprender com o passado, olhar para o presente e perspectivar o futuro. Para o cidadão comum é gratificante ver políticos com espírito de missão e que estes também existem em Angola.