Brunch With...Paulo Araújo

Flexível, mas guarda no seu âmago o desejo de contribuir com algo maior. Conheça o percurso do gestor que ousou abdicar da actividade bancária para criar a sua própria marca.

Luanda /
26 Jul 2019 / 12:53 H.

A conversa que decorreu no restaurante Matabicho traz para esta edição o fundador e CEO da Wiconnect, Paulo Araújo, que almeja contribuir e fazer a diferença no País. Gente flexível, gosta de fazer viagens turísticas, mas guarda no seu interior a vontade de crescer o máximo na empresa que comanda, tornando a internet mais barata.

Os seus planos pessoais estão virados para a contribuição de algo maior, através dos dotes que possui e dos assuntos que entende.

“Eu prefiro fazer uma coisa bem do que ficar a meterme em coisas que não percebo, o meu foco é a Wiconnect, criar parcerias locais, queremos daqui a um ano exportar tecnologia angolana para fora das fronteiras da Angola”, avança.

O empreendedor avança que teve muitos momentos altos, porém faz referência a dois acontecimentos, um pela empresa ser vencedora do prémio “Seedstars” conhecida como a Startup mais inovadora em 2016 e outro por ter conseguido contrato com Banco BAI, instituição pelo qual investe nas suas tecnologias. Mas o feedback dos utilizadores é o motivo maioritário pelo qual o gestor entende continuar a trilhar os caminhos Wiconnect. “Esses feedbacks são importantes para nós porque quando as coisas ficam difíceis, lembrar os benefícios e o caminho que já percorremos, motiva-nos a olhar em frente”, mencionou.

Para sentir-se cada vez mais inspirado, encontra nos livros de empreendedorismo lições para vida. “O que mais me inspira é o ‘Zero to One, How to build the future’, de Peter Thiel, uma das lições que eu tento aplicar sempre é não criar concorrentes, mas sim provocar relações que todo mundo sai a ganhar”, refere.

Desafios na diáspora

Jovem de 30 anos de idade e filho de pais angolanos, nasceu e cresceu em Luanda até os seus dez anos. Diz que a sua infância foi muito boa, cresceu num prédio no Maculusso e sente-se feliz por ter experienciado as brincadeiras angolanas com os vizinhos. O gestor quis ser um bocadinho de tudo, mágico, astronauta e até médico, mas a influência familiar fez com que optasse por mesmo ramo. “O meu pai construiu uma empresa do zero e num espaço de 12 anos começou a ser avaliada a 100 milhões de dólares, o meu irmão tornou-se presidente com 32 anos de idade numa empresa em Portugal, a minha mãe está relacionada com muitos negócios, portanto, sempre tive influência interna de empresários”, revela.

Fez o primeiro ao quarto ano de escolaridade em Angola. Aos dez anos de idade, teve a oportunidade de estudar, numa sequência da decisão dos pais, na África do Sul, onde estudou até a oitava classe na escola Americana Internacional de Joanesburgo. Com os 16 anos foi para a Inglaterra fazer o liceu no curso de “International Baccalaureate”, o que lhe permitiu obter dois diplomas. Entendeu, todavia, dar continuidade ao seu background fazendo a licenciatura no curso de Matemática e Gestão, na Loughborough University, Inglaterra. “Fiz o curso por aconselhamento do meu pai, achando que tendo um curso duplo estaria melhor preparado para o mercado de trabalho, realmente ele tinha razão”, lembrou.

Os primeiros passos do negócio

Quando terminou a formação, com os seus 22 anos, decide regressar para a sua terra natal e teve um enquadramento rápido como seu primeiro emprego no Standard Bank, nas finanças durante quatro anos. Como adquiriu experiências suficientes foi encaminhado para a área de mercados por mais três anos. “Não queria ficar a trabalhar fora, o nosso País deu-me tanto e de alguma forma queria retribuir voltando para cá”, sublinhou.

No decorrer da prestação laboral, nasceu uma vontade enorme de causar um impacto no seu País, então Paulo abdicou o seu trabalho no Standard Bank para, juntamente com um sócio, abrirem uma empresa ligada às tecnologias de informação, a “Wiconnect”, uma plataforma de internet Wi-fi grátis, com mais de 190 pontos de acesso em agências pelo País.

“Em 2015 convidei o meu primo Francisco Carrolo para nos encontrarmos em minha casa. Detetamos um problema: os dados de internet em Angola são muito caros, então começamos a pensar numa forma de tornar a internet mais barata e foi assim que surgiu a ideia da Wiconnect”, avançou. No princípio, acrescenta o responsável, “estivemos a trabalhar com uma corporativa durante dois anos, demos um pulo e agora estamos focados na Wiconnect”.

Paulo diz que hoje está a realizar um sonho porque há mais gente a utilizar internet grátis do que há quatro anos. No que toca aos empreendedores, o gestor aconselha os novos líderes a conhecerem os clientes. “Uma das grandes razões pela qual os projectos não dão certo, é que nós não percebemos os nossos clientes.

Antes de investir num projecto aconselho sempre a falar com os clientes e saber as suas necessidades”, comenta.

Quanto a situação actual do País, faz lembrar que muitas Startups foram e estão sendo criadas nos tempos difíceis que a nação enfrenta, sendo, entretanto, uma questão de perspectivas e de oportunidade. Fecha com uma frase para reflexão “o pessimista vê cada oportunidade como um desastre e o optimista vê cada desastre uma oportunidade”, acreditando numa Angola melhor.