Brunch With...Ninda Baptista

A Bióloga angolana dedicada a projectos de conservação, investigação, divulgação científica e à educação ambiental.

Angola /
07 Mai 2019 / 11:55 H.

A mestre em Biologia da Conservação, Ninda Baptista nasceu e fez parte dos estudos em Luanda, mas foi em Portugal onde concluiu a licenciatura em Biologia Ambiental, em 2009, e o mestrado em Biologia da Conservação dois anos depois.

“Vivi em Portugal dos seis aos onze anos de idade, mas vinha sempre a Angola nas férias”, comenta. Diz que gostava muito de escrever e de ir à praia, quando era criança, isso fez com que mantivesse por essa altura dois sonhos: ser mergulhadora ou escritora. Mas, anos depois, a Biologia tornou-se mais relevante. “O contacto com a natureza era constante, penso que em parte isto terá contribuído para a decisão de estudar Biologia”, justifica. Durante o seu percurso académico esteve em vários países, onde alargou os seus horizontes, por exemplo, o Brasil, Malásia e desenvolveu parte da sua tese de mestrado na África do Sul, e trabalhou pontualmente no Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique. “Estar numa floresta tropical e em contacto com investigadores e estudantes de várias partes do mundo foi das experiências mais incríveis que já tive”, confessa.

Da pesquisa científica ao crescimento profissional

Após o mestrado, trabalhou em investigação na Universidade de Lisboa, em consultoria ambiental em Angola, e em participou pontualmente em projectos de conservação aplicada, nomeadamente no Projecto de Conservação da Palanca Negra Gigante, e Projecto Kitabanga (conservação de tartarugas marinhas) como voluntária.

Começou a trabalhar em 2015, no ISCED do Lubango, Huíla. Aí integrou o projecto SASSCAL — Southern African Science Service Centre for Climate Change and Adaptive Land Management (Serviços Científicos para as Alterações Climáticas e Gestão Adaptativa do Território da África Austral), que engloba cinco países: Angola, Namíbia, África do Sul, Zâmbia e Botswana.

“O objectivo deste projecto é recolher informação sobre a fauna, flora, clima, hidrologia nestes cinco países, e estabelecer uma base de dados contínua ao longo do tempo que permita fazer estudos a longo prazo sobre as alterações climáticas”, explicou.

Uma das experiências que Ninda considera muito enriquecedora e que a fez crescer, no contacto com a fauna, enquanto herpetóloga assistente, são os projectos Okavango Wilderness Project da National Geographic e de Conservação da Floresta da Kumbira.

Questionada sobre os desafios de existirem poucos biólogos no País, Ninda afirma que seja lamentável, porque temos uma grande diversidade de ecossistemas, muito por descobrir e proteger, e seria preciso pessoas para isso.

Por outro lado, vê nisto uma oportunidade de estar exposta a várias áreas de actuação, o que acaba por ser benéfico. “Até agora, o meu trabalho consiste principalmente em fazer investigação científica, o que implica ir ao campo fazer recolha de dados, analisá-los, e publicar a informação em revistas científicas.”, disse.

Apesar de não se considerar escritora, a bióloga vê na escrita uma forma de divulgar e educar sobre questões ambientais, sendo partes importantes da sua actividade. Escreveu um artigo sobre a floresta da Kumbira na revista Austral, e é co-autora do último livro infantil do projecto de educação ambiental “Estórias para Conservar”, da Fundação Kissama, que é sobre uma ave nacional, a andua-de-crista-vermelha.

Tal como conta, ambos os trabalhos resultam da sua participação no Projecto de Conservação da Floresta da Kumbira, localizada no Cuanza Sul, na escarpa de Angola. “A escarpa está entre as zonas prioritárias para conservação em Angola, porque lá ocorrem várias espécies únicas, que só existem no nosso país”, garantiu a especialista.

Recentemente foi publicado o livro “Biodiversity of Angola – Science and Conservation: A Modern Synthesis”, onde Ninda é primeira autora e co-autora de dois capítulos. Ao fazer a compilação da informação existente sobre a biodiversidade de Angola e identificar as prioridades de pesquisa para o futuro, esta é uma obra referência para o estudo da biodiversidade do País.

Em busca da autorrealização

O escritor moçambicano Mia Couto é uma das referências da nossa convidada. “Não só pela sua obra literária, mas pela sua coerência, e por ser crítico da sociedade. Sendo biólogo e escritor de romances e de crónicas, tem uma actividade interdisciplinar e isso é algo que admiro muito.” A humildade é uma característica que valoriza bastante, porque considera que estamos sempre a aprender e que é importante termos consciência de que não sabemos tudo. Considera que o optimismo, aliados à persistência e ao pragmatismo, são importantes para atingir objectivos face aos muitos obstáculos que existem na sua área.

Ninda diz que gosta de sentir que o que faz no dia-adia tem algum impacto na sociedade, como por exemplo, “Contribuir para a conservação, sensibilização da sociedade angolana sobre a importância de preservar a biodiversidade.” Revela ainda que apesar sua experiência profissional estar muito ligada à Biologia, tem outros interesses. “Sentir-se realizado é algo que vai acontecendo, porque à medida que o tempo passa, vamo-nos moldando e o próprio significado de realização também muda.”, concluiu.