Brunch With...Iracema Watari

Aliou experiência profissional com uma veia empreendedora, a criadora de uma linha de cosméticos partilha o seu percurso de vida.

Angola /
07 Mar 2019 / 11:04 H.

A empreendedora, vocacionada para a criação de cosméticos naturais nasceu e cresceu em Luanda, num ambiente familiar com muitas irmãs. Conta que teve uma infância “muito boa e generosa, embora tivesse passado por alguns momentos tensos” em decorrência da guerra. Descreve neste brunch os desafios de viver e empreender em Luanda. Uma cidade que, como se sabe, carece de muitas infra-estruturas e de melhor organização, mas também defende que é cosmopolitana. “Cheia de vida e de pessoas de diferentes partes do mundo e isso facilita a troca de experiências comerciais”, afirma. Iracema Watari considera-se uma sonhadora, quando mais nova queria ser Médica Pediatra. Começou a estudar no Instituto Médio de Saúde (IMS) em Luanda, entre 1991 a 1996 e trabalhava como enfermeira-assistente de Estomatologia na clínica da Endiama. “Este sonho reflecte-se no que eu faço, porque sempre tive vocação para cuidar e tratar das pessoas, família e amigos”, confessou. Lamentavelmente, em 1996, perdeu o pai. Por forças adicionais teve que abandonar os estudos e começar a trabalhar. Entretanto, no mesmo ano foi para Lisboa, onde viveu quatro anos. Tempo que a fez mudar o foco para um ramo diferente da Saúde. O imobiliário.

Percurso e experiências profissional

Iracema diz que fez o seu percurso profissional com muita luta. Recorda que laborou na área de atendimento ao cliente, em 1997, numa operadora de TV por assinatura em Portugal. Em 1999 foi ainda secretária numa imobiliária em Estoril (Lisboa), onde também trabalhou como correctora. Os trabalhos como mediadora imobiliária fizeram-lhe aprender muito e a ganhar gosto pela actividade, com efeito, foi mais além. Aprendeu sobre princípios de decoração de interior, o que lhe valeu posteriormente alguns dos trabalhos realizados em Angola. “Criei a empresa sozinha, com poucos recursos e muitas dificuldades para obter matérias-primas, mas sempre primei pelo bom planeamento para enfrentar os desafios que a economia do País nos impõe”, revela. Após seu regresso de Portugal à Luanda em 2000, Iracema começou a trabalhar numa empresa privada de transportes públicos, como assistente de recursos humanos durante um ano. Depois de outra experiência laboral, aproveitou o bom imobiliário que o País vivenciava na altura, foi trabalhar como secretária executiva numa imobiliária em 2002. Dois anos depois, decidiu abrir a sua empresa. “Resolvi abrir a minha própria agência denominada ‘‘SOS Imóveis’’ e realizei inúmeras transacções, onde actuei até 2013”, disse. Iracema confessa que foi o momento mais alto da sua carreira. Rodeada de bons exemplos de jovens gestores, empreendedores e líderes, é da opinião que os jovens têm de buscar forças e iniciativas inovadoras para o mercado nacional.

A criação da ‘‘Cheirus Artesanais’’

Até interessar-se por cosméticos naturais, conta que não tinha a noção do que era esse mundo. “Nunca tinha ouvido falar sobre sabonetes naturais e artesanais”, confessa. Em 2012, ela fez uma viagem ao Brasil com o seu esposo e lá a avó dele ofereceu-lhe algumas receitas de sabão natural à base de óleos usados e plantas naturais. Durante dois anos, manteve essas receitas guardadas dentro da sua gaveta. Mas, num belo dia, lembrou-se de que a sua avó tratava várias doenças com plantas, ervas e raízes medicinais tradicionais da nossa terra. “Surgiu-me a ideia de experimentar a saboaria com ervas medicinais e foi então que comecei com as minhas primeiras experiências. A princípio os resultados não foram muito positivos, mas muito engraçados”, revela sorrindo. Através de muita leitura de livros do ramos e inúmeras pesquisas realizadas via internet, a empreendedora começou a perceber melhor as técnicas empregadas e com isso, a medida que o tempo passava, os resultados iam melhorando. “Isso fez com que a minha paixão sobre a saboaria baseada na técnica de cold process aumentasse muito”. Com vontade de aprender cada vez mais, a fundadora da Cheirus regressa a recorrentemente a Portugal em busca de conhecimentos, participando em workshops. “No princípio comecei a fazer para oferecer aos amigos e familiares, daí fui me apercebendo da aceitação por parte deles e naquele momento resolvi que este era o meu negócio, a minha actividade profissional’’. Em meados de 2015 cria formalmente a Cheirus Artesanais, no mercado angolano, após já ter produzido alguma quantidade de sabonetes e demais produtos, participar nas feiras de artesanato, eventos de empresas e posteriormente passou a fornecer às farmácias e supermercados, assim como a fazer brindes de casamentos. “Todos os produtos são confeccionados à mão com o uso de ingredientes naturais e certificadas com a adição de ervas e óleos nacionais e óleos importados, amplamente conhecidos pelas suas propriedades medicinais que curam e hidratam a pele”, garante. Iracema afirma ainda que são 100% naturais, saudáveis, seguros, económicos e ainda amigo do ambiente.

Objectivos empresariais e pessoais

Relativamente aos objectivos empresariais afirma que pretende expandir a sua marca para todo o território nacional e posteriormente ao exterior. Diz que outro desafio é o preconceito em relação ao produto nacional. “Grandes cadeias de lojas e farmácias não aceitam o nosso produto e contra isso tem sido díficil de lutar. “Mas, aos poucos, estamos a provar que a nossa marca merece respeito e temos alcançado reconhecimento por parte dos nossos clientes e admiradores, pois tenho recebido inúmeras mensagens e telefonemas agradecendo os sabonetes porque são eficazes”, garante mais uma vez. Ao passo que ao nível pessoal, quer manter o foco em si mesma e a compreender que todos os acontecimentos do dia-a-dia servem para o seu crescimento. “Tento sempre pensar de uma forma mais ampla, fazendo planos e usar a capacidade de analisar os meus conceitos e com isso ter um melhor discernimento na tomada de decisões, é assim que consigo superar as minhas ambições”, confessa. “A juventude deve consolidar as suas ideias e nunca desistir dos seus sonhos”, aconselha. Considera que apesar das dificuldades económicas e sociais por que passa o País, é necessário que se tome como um desafio pessoal, para alcançar o sucesso.