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Brunch With...Helena Morais

Os seus pais, muito rigorosos na educação dos filhos, mantiveram a religião como base da educação, o que não foi uma tarefa fácil para uma família diversificada.

Luanda /
30 Set 2019 / 08:46 H.

Na infância, teve vários sonhos. Quis ser cientista, cirurgiã, aeromoça, e por volta dos oito anos de idade interessou-se pela diplomacia. Concluiu o ensino primário na Escola Pioneiro Zeca, Luanda, que hoje recorda nostálgica – já não existe: “foi uma grande escola.” Na 5.ª classe, o pai matriculou-a no Colégio Elisângela Filomena, e aí concluiu o pré-universitário, em 2002, em Ciências Sociais. Ingressou na Universidade Lusíada, em Direito, mas, como o curso não tinha línguas, preferiu Relações Internacionais, e assim continuou a desenvolver o nível linguístico que pretendia ter.

Durante a sua formação académica, foi encontrando fontes de inspiração. Na faculdade, Evandra Martins foi a sua musa inspiradora. Era recém-licenciada e ajudou Helena na tomada de decisão em ir estudar para a Rússia, dando-lhe muita força e coragem: “vai, o diploma é teu, e será uma mais-valia que o concretizes no exterior.”

E assim foi. Em 2003, a Rússia passou a ser a sua nova morada. Entretanto, volta ao Direito na universidade estatal de Voronezh, em regime de bolsa numa cooperação dos dois governos. Mais tarde, até 2007, tornou-se bolseira integral do INAGBE.

Nem tudo foi fácil. Os hábitos e costumes, a introversão dos russos, a xenofobia e o racismo eram visíveis na altura, mas o balanço é positivo. “ “Tenho boas recordações”, garante.

Terminada a formação, seis anos depois, é o desejado regresso a Angola. “Voltei para Luanda, e aqui começou o meu pesadelo.” Cheia de sonhos, projectos e sedenta de desafios, trabalhar na sua área de formação, inicialmente, foi muito difícil, mas em paralelo fez o mestrado em Direito Internacional.

Mirex distante

Na altura, as candidaturas ao Mirex eram complicadas. Era preciso muita sorte para conseguir ingressar. Desapontada, sentiu-se esquecida pelo Estado. Como bolseira do INABE, pensava que teria um enquadramento mais célere no mercado de trabalho, mas isso não ocorreu. O seu primeiro emprego foi como auxiliar de tesouraria na empresa de despachantes de uma amiga, em 2009, mas tinha de começar por algum lado. “O início é sempre o mais difícil, depois é que vêm os proveitos.”

À procura de uma oportunidade, foi à entrevistas e foi trabalhando, até ser entrevistada por um grupo que recrutava para instituições financeiras. Ingressa na comissão instaladora do Banco Valor, como secretária executiva, em 2010. Estar grávida não foi uma condicionante: usufruiu da licença pós-parto e, no regresso, passou a assistente jurídica. Fez um estágio no escritório de advogados SDHP, três anos mais tarde foi para a Angola ALC, onde conseguiu ter a carteira profissional de advogada.

Foi ainda compliance officere directora financeira, função que desempenha até hoje. Com a crise financeira e outras dificuldades “o País foi obrigado a ser regido pelas boas práticas financeiras internacionais e a implementar instrumentos jurídicos para as fazer cumprir”, lembra.

Trabalho árduo

Para se tornar compliance officer, precisou de horas de formação e dedicação: esta era uma profissão nova no mercado financeiro angolano. “A minha meta é ser uma profissional de referência.” Após alguns anos, Helena, voltou à Rússia, para fazer um estágio no banco VTB África, aprimorando conhecimentos na posição que iria ocupar.

Como mentores, encontra Helena Jardim, na altura advogada de referência que trabalhava com o BNA, Rui Minguês, que lhe deu as boas-vindas no desafio da banca, e Helena Prata, a advogada tutora, que a acolheu durante o estágio. “Foram todos muito rigorosos comigo, o que alicerçou esta qualidade que é inata na minha personalidade”, conta.

Tem como hobby a música, e quando pode dedica-se ao rap, o seu estilo preferido. A sua exigência estende-se às amizades. Amiga dos seus amigos, determinada e rigorosa, diz-se simpática, apesar de à primeira vista não parecer. Gosta de ler dramas e romances, apreciando a arte em todas as suas vertentes.

E é lutadora. “Nunca desistam dos sonhos”. Para sermos vencedores, é fundamental não mudarmos para agradar os outros mas, sermos nós próprios, sublinha.

“Nada acontece do dia para a noite, devemos ser cada vez mais pacientes”, sugere, alertando que “a juventude de hoje quer as coisas para já e não consegue obedecer a etapas”.

Helena acredita que não exista desafio maior que viver e manter-se vivo. Os obstáculos e desafios que se impõem no caminho surgem para testar as nossas capacidades, e cabe-nos saber como enfrentá-los. Só nos fortalecem com o passar do tempo, transformando-se em lições de vida.