Brunch With... Djanira Barbosa

Carismática e talhada para abraçar projectos artísticos e culturais, este ano criou o Kaluanda Fest, a propósito das festividades da cidade de Luanda e garante que “a odisseia veio para ficar”.

Angola /
26 Nov 2018 / 12:20 H.

A nossa convidada para o Brunch desta semana no restaurante ‘Puro Malte’ tem sido presença habitual nas manhãs dominicais como pivô do programa “Mata-bicho de Domingo”, da rádio Lac. A também mentora do festival anual em alusão ao aniversário de Luanda, nasceu aos 14 de Julho e foi criada bem no “coração” de Luanda, Kinaxixi. Descreve a sua infância como “introvertida mas muito criativa”, lembrando que as coisas que mais gostava de fazer era transformar objectos e materiais. “Muitas vezes dava por mim a transformar um convite de papel em alguma outra coisa, ou a utilizar peças de roupa para outros fins”, lembrou.

Orgulhosa de ter sido criada no seio de uma família matriarcal, foi educada pela mãe e duas irmãs mais velhas, considerando que foi uma criança feliz, vendo o seu crescimento equilibrado entre mimos e alguma rigidez. “Tive uma vertente religiosa muito forte na minha educação, e foi através da igreja que comecei a ter contacto com actividades de cariz social”, explicou.

Formação e projecção de carreira

“Estudei a vida toda em Angola e adoro isso”, é desta forma que Djanira começa a descrever o seu percurso académico cujo ensino primário foi feito na Escola Vasco da Gama (hoje já não existe), o ensino médio no Puniv, onde “contrariada” cursou Ciências exactas. “Queria fazer Sociais, na altura sonhava com alguma coisa ligada ao direito ou a Sociologia. Por influência da minha mãe, segui para exactas, mas não me arrependi. Adorava Biologia, Química e nesta fase comecei a desenvolver a vontade de ser médica”, explicou. Aos 16 anos ingressou para o então Instituto Superior Privado de Angola – Ispra, hoje Upra, onde iniciou o Curso Superior de Saúde, na área de Fisioterapia. “Era um curso interessante, mas com uma jornada muito desgastante, decidi que não queria mais, desisti no terceiro ano”. Decisão esta que obrigou-lhe a andar pelas próprias pernas” e arranjar um trabalho que doravante lhe ajudasse a custear os seus estudos. “Na altura as propinas eram pagas num esforço conjunto entre a minha mãe e irmãs. A minha mãe não reagiu bem à minha desistência e desafioume a trabalhar para pagar então o curso que eu queria fazer. Nesta altura, com 19 anos inscrevi-me na Universidade Lusíada, no Curso de Direito”, esclareceu. Nesta altura, Barbosa fazia parte de uma associação Juvenil “Kwenda Kupolo” e partilhou a sua situação com um dos patronos da associação que por sua vez, empregou-a como secretária numa empresa do Grupo Cabire Alimentos. “Foi o meu primeiro emprego, ganhava cerca de 100 dólares. Foi uma experiência muito agregadora, ensinaram-me as primeiras noções sobre processos administrativos, gestão de pessoas e etc”, revelou.

Dois anos depois passou a trabalhar na Sistec, na área técnica. E estudava à noite. “ Tinha uma jornada de trabalho muito intensa, chegava ao final do dia muito estafada. Não queria parar de estudar, mas comecei a ter uma certa frustração em estudar direito e assim, desisti”. Entre desistências e recomeços, aos 21 anos, começa a trabalhar numa empresa de apoio logístico à indústria petrolífera, onde permaneceu quatro anos como secretária e três anos e meio como técnica de Comunicação e imagem, até que em Setembro de 2016 é convidada para ser gestora de projectos numa agência de branding e comunicação. Outra “experiência fantástica” e outro ponto de mudança na sua vida. “Aí comecei a sentir que as coisas faziam sentido.

As minhas aptidões casavam com o meu trabalho e com as actividades que em paralelo desenvolvia: movimentos culturais e sociais”.No meio deste percurso, a locutora interessou-se pela matriz do curso de Língua Portuguesa e Comunicação na Universidade Metodista de Angola, e aí teve a certeza do que queria seguir academicamente: “inscrevi-me e este ano concluí”, orgulha-se.

Profissionalmente, outras experiências na área de marketing, comunicação e visual marcaram-na, “nomeadamente o projecto Soba Store, onde colaborei como gestora de marketing, o projecto Views Of Angola e #cidade de luanda, que foram o trampolim para a minha aptidão para a fotografia”, afirmou.

Ambições pessoais

Kaluanda de gema e visivelmente preocupada com a cena cultural e alternativa luandense, é responsável pela actualização dos blogues Luanda Alternativa e Agenda cultural, publicações que trazem toda informação cultural da cidade e arredores. Anseia continuar a contribuir para o crescimento de Angola, “quero estar bem num país que esteja bem. Profissionalmente quero ser desafiada a desenvolver projectos artísticos e culturais, é a minha paixão e creio que vou viver para isso” acentuou a criadora do Kaluanda Fest, um projecto que “perspectiva-se duradouro”.

Questionada sobre o papel da juventude na conjuntura actual, foi unânime em responder que é o melhor momento para se ser jovem em Angola. “Digo isto porque é a grande oportunidade que a juventude angolana tem para se explorar, servir o país, arregaçar as mangas e trabalhar para soluções que vão marcar esta grande reviravolta. É como se tivéssemos sido entregues aos lobos, temos a missão de nos superar, de fazer melhor, de mostrar para que vale toda essa energia desta nossa geração e sobretudo: promover uma mudança positiva”, concluiu.