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Brunch With: Cristina Câmara

Conheça a fonte de inspiração da arquitecta que acredita na redução do impacto negativo sobre as paisagens e do seu envolvimento em planos de requalificação da capital do País.

Angola /
01 Jul 2019 / 09:50 H.

A nossa convidada para esta edição do Brunch With é a arquitecta paisagista, Cristina Câmara, igualmente conhecida por Lueji Dharma, no contexto da literatura e da rádio, enquanto escritora.

Formada também em Sistemas de Informação Geográfica, possui especialização em Planeamento Regional e Urbano, além de actuar nessas áreas, Cristina abraçou o desafio da docência para garantir que o testemunho da sustentabilidade ambiental se perpetue pelas gerações vindouras, por essa razão admite estar a realizar o seu sonho de contribuir para um mundo melhor.

Tem como ambições e objectivos profissionais continuar a transferir os modelos de desenvolvimento económico para o território, porém com mais sucesso na implementação. Acredita que esta depende maioritariamente de um aumento do patriotismo e do amor ao próximo por parte dos gestores e políticos.

A arquitecta considera o sinónimo de lazer e descanso ao tempo passado a viajar pelas paisagens rurais. A grande satisfação resulta da ideia de registar os pensamentos e os factos, de tal modo que, um bloco de notas e a caneta são os companheiros inseparáveis de Cristina. É destas visitas e anotações, bem como, do compromisso com a leitura que surge parte da sua criatividade e imaginação.

Vários livros marcaram a sua vida e foram autênticos conselheiros para momentos desafiantes, mas destaca o livro de Pepetela “Lueji, o Renascimento de um Império”, mas é na Bíblia que encontra a maior fonte de inspiração para ultrapassar as dificuldades.

Cristina revela ainda que o seu momento mais alto foi o de ser mãe. Para ela, todo o processo foi uma redescoberta e uma verdadeira felicidade como nunca sentida. “A minha filha tornou-me uma pessoa mais forte, mais compreensiva e mais flexível”, conta emocionada. Envolvida em emoções, Cristina descreve as linhas que constroem a sua trajectória académica e profissional, levando-nos numa viagem pelos caminhos que a conduziram para lutar por um mundo mais verde e justo.

Infância e percurso académico

Nasceu em Calonda, Lunda Norte, no conturbado momento do 27 de Maio de 1977, onde a insegurança era um tema constante. “Quase nasci no carro devido ao recolher obrigatório”, recorda.

A sua infância foi passada entre um lar na Lunda Norte com os seus pais e, posteriormente, com a sua avó paterna em Santa Cruz. Embora tenha tido momentos maravilhosos, lembra que a sua infância também teve muitos contratempos e desafios; aos seis anos de idade, o carro onde seguia foi baleado, pelo que a sua vizinha acabou sendo atingida. Esta situação de perigo fez com que os seus pais optassem por enviar-lhe para Portugal .

Apesar dos vários desafios, nada impediu Cristina de brincar nas ruas de terra vermelha de Lucapa, apanhar mangas e cozinhar em latinhas. Na verdade, a infância e todas as pessoas que rodearam aquela fase de sua vida tornaram-se

numa verdadeira fonte inesgotável de inspiração e, ao escrever o “Aldeia de Deus” encontrou um caminho para voltar a esta infância perdida e retribuir o carinho de muitos.

Na sua tenra idade, Cristina sonhava de forma ingénua, à semelhança de muitas crianças, em ser médica ou bailarina. Mas todos estes sonhos da infância foram maturando na adolescência num denominador comum: o sonho de um mundo mais justo, rico e humano.

Quanto à formação, a convidada iniciou a primária com os cinco anos de idade em Lucapa, na Lunda Norte, e deu continuidade, um ano depois, em Santa Cruz na Madeira, Portugal. No secundário frequentou a área de saúde. Teve boas notas, mas, segundo a paisagista, parecia não haver um curso que a interessasse, entretanto, acabou por escolher um que reunia arte, ciência e ambiente. “A entrada na Universidade Técnica de Lisboa – ISA, em 1995, foi um grande desafio, pois, tive de aprender a viver sozinha”, regozijou-se. Logo após concluir a licenciatura, em 2001, inscreveu-se no Mestrado de Sistemas de Informação Geográfica no Instituto Superior Técnico.

Desafios profissionais

Enquanto estudava, Cristina trabalhava para os serviços sociais em part-time para ajudar a pagar a faculdade. Após terminar a licenciatura foi de seguida estagiar no Instituto da Conservação da Natureza, mas a vontade de experienciar os conhecimentos adquiridos fez Cristina mergulhar no projecto do Freeport, na altura o maior outlet da Europa . Entretanto, decidiu culminar o seu percurso profissional em Portugal, trabalhando como chefe do sector de espaços verdes.

Feito isso, regressa definitivamente para Angola em 2009, começando por prestar serviços de consultoria em Sistemas de Informação Geográfica na Total e na Sonangol. Em 2011 foi contratada pelo Gabinete Técnico de Reconversão Urbana do Cazenga para trabalhar na sua área de formação. “Tive a oportunidade de ajudar a traçar o Plano Director do Cazenga, Sambizanga e Rangel, funcionando como chefe de planeamento urbano, que foi premiado nacional e internacionalmente”, revelou.

Em 2013 recebeu uma bolsa para a especialização profissional em planeamento regional e urbano na MIT, Estados Unidos. Ao regressar altamente motivada a partilhar o que aprendeu, abraçou um novo desafio profissional feito pelo Eng.º Benedito Paulo do IMETRO, o de garantir que o curso de Planeamento Regional e Urbano ganhasse mais alunos. “Foi um desafio que me levou a dar aulas e a realizar um documentário sobre Arquitectura em Angola com os alunos do NEARQ da IMETRO”, lembrou.

No capítulo da opinião sobre os novos “gestores e líderes”, avança que estes títulos só devem ser aplicados àqueles que com sacrifício, entrega, trabalho e partilha colocam pedras na construção de empresas, equipas e resultados. Em conclusão, considera que o País necessita de quadros patrióticos, experientes e com conhecimentos. Acredita que a meritocracia é o único caminho para o desenvolvimento que os angolanos sonham.