Brunch With: Beatriz Geraldo

Conheça a história da artista plástica e designer gráfico que enveredou no mundo da moda e venceu vários prémios. Partilha aqui o seu trajecto inspirador.

Angola /
01 Abr 2019 / 09:13 H.

A nossa convidada do brunch desta edição, que decorreu no restaurante Fazendeiro, é a carismática e alegre Beatriz Geraldo, uma designer gráfico que herdou do pai a criatividade para fazer arte e do dom fez ofício. Natural de Lubango, nasceu em 1 de Outubro de 1984, mas muito cedo ela e os irmãos foram levados para o Botswana, onde passou a infância até aos 12 anos. Nesse período, diz que desenhava sempre um pouco de tudo com o seu pai. ‘‘Todos os dias depois do trabalho, o meu pai pegava no lápis e pincel, fazia a arte dele e como eu gostava muito daquilo criava com ele. Comecei com caricaturas e depois, dei por mim a ajudá-lo nos trabalhos”, lembra. Confessa que em criança sonhava ser arquitecta. Entretanto, em 1996, quando o seu pai falece, a arte foi a única forma de expressar os seus sentimentos e começou a desenhar muitas vezes sem contas. Desenhava apenas e nada mais, um escape que a fez acumular três grandes arquivos só de pinturas. Conta que depois dessa infelicidade, no mesmo ano, volta com os irmãos para Angola. ‘‘Voltamos para Angola, mas não conhecíamos a cultura e muito menos sabíamos falar a Língua Portuguesa, porque crescemos fora, estava a ser uma adaptação bem difícil’’, confessa. Dois anos depois, em 1997, ela e a família vão para a Namíbia, por causa da facilidade da Língua Inglesa e por ser uma cultura mais próxima do Botswana.

Percurso académico e profissional

Bea, como gosta de ser chamada, depois de regressar do Botswana em 1996, teve que repetir a quinta classe no Lubango. Devido algumas dificuldades, volta para a Namíbia, em Windhoek fez o Ensino Médio e o curso de moda até ao 12º ano. Foi à Cape Town, África do Sul, fazer o curso de Designer Interior. ‘‘Naquele tempo não conseguia distinguir em que tipo de designer queria fazer, então para mim designer interior foi o mais o próximo, vivemos em tantos países e foi algo que despertou o gosto de decorar e fazer designers interiores’’, explica. Em 2001, como a sua irmã estava a fazer designer de moda, convidou-a a trabalhar com ela, participaram do primeiro desfile, onde foram convidadas a participar na competição de jovens empreendedores, um mês depois ganharam o prémio e foi daí que começou a viagem. Versátil em artes, teve como o seu primeiro emprego em Designer de Moda, mas o emprego mais oficial foi quando criou a sua marca de desenho de moda chamada ‘‘Geraldo Fashions’’ com a sua irmã. Em 2005 foi viver para o Cunene onde trabalhou na Air Gemini, durante um ano, como assistente de terra, depois foi para a empresa de desminagem MGM, como logística. Com a arte a corre-lhes nas veias, Beatriz diz que ela e a irmã decidiram regressar a Luanda para voltar a fazer moda como designer, tinham que trabalhar e começar de novo, desde 2007 até 2017, como directora de Logística na Luanda International School. Questionada de como é ser artista em Angola, responde que é interessante, mas a única diferença com outros países é a dificuldade de encontrar materiais, o que a faz puxar mais pela criatividade. ‘‘Desde os meus 16 anos de idade que reflicto, sobre o que ia fazer como criativa, o desenho de moda, não foi algo que escolhi, mas foi o desenho de moda que escolheu a mim’’, regozijou-se. No primeiro mês de actividade ganhou o prémio de melhor empreendedora. No ano seguinte, o prémio de melhor artista designer de moda jovem. Daí que começou, porque estava a receber vários prémios, motivação para não mais parar. Lembra-nos que depois de chegar a Angola em 2005, altura em que começara com a moda novamente, fez o Angola Fashion Week, Moda Luanda e foi convidada para fazer um desfile em Nova Yorque, Moçambique e Lisboa.

Desafios e ambições

Beatriz lembra que o seu pai foi o seu instrutor e ensinou todos os oitos filhos como militares, quanto as meninas faziam tudo em casa, desde pregar e construir coisas. Mas, entrar na onda foi o que de mais desafiante teve de encarar. “Entrar no mundo das artes foi para mim um desafio, deixar a moda onde estava confortável há muitos anos, ganhei muitos prémios, fui muito bem conhecida e decide fazer algo que realmente gostava muito mais que a moda, foi um risco’’, afirma. Deixou tudo para começar de novo no mundo das artes, sem salários, sem nada foi para Portugal fazer o curso de Designer Gráfico. Começou a ser conhecida como artista plástica, não pela moda, mas por causa do que mostrava, o seu processo criativo, no instagram. ‘‘Na verdade estava a fazer só porque queria mostrar o meu trabalho, não era para vender, era só para me expressar, mostrei o que eu gostava de fazer, as pessoas começaram a ver e daí surgiu um convite para fazer a minha exposição no HCTA durante um mês”, admite. Garante que conseguiu vender tudo em menos de 20 dias, algo que nem pensava e surpreendeu até aos artistas de renome que lá estavam e conheciam o seu percurso. Com isto, Bea explodiu no mundo das artes plásticas mais rápido do que pensava. Beatriz tem duas ambições: expressar-se mais artisticamente, tendo mais pessoas que gostem e vêem os seus trabalhos, mantendo-o ao mesmo tempo sustentável. A outra é realizar um sonho que era de seu pai, de ser artista plástica de renome, mas que não conseguiu. Para ela, o mais importante é estar feliz e buscar aquilo de que se gosta e tem como modelo de vida Martin Luther King. Diz ainda que aplica no dia-a-dia as teorias de Nelson Mandela e Dalai Lama, justificando de que se interpretarmos as coisas que eles dizem e fizeram, conseguimos gerir a nossa vida. Defende o lema: ‘‘não podemos ter medo de arriscar, de nos reinventar, porque só assim iremos descobrir o que gostamos.’’ Aos mais jovens líderes, empreendedores apela mais uma vez a não ter medo de se reinventarem. Um aspecto que acredita ser muito importante, porque muitas pessoas ficam estagnadas achando que não conseguem fazer mais de uma coisa na vida, com medo do fracasso, não podendo fazer outras coisas. Mas a vida requer sacrifícios. “Há que fazer sacrifícios, mesmo se achares que é muita coisa e que não vais conseguir, tens de acima de tudo gostar do que fazes”, exorta