Diferença entre mercado cambial oficial e de rua em Angola acentua queda

Numa ronda feita hoje por alguns dos bairros da capital angolana, as ‘kinguilas’, como são conhecidas as mulheres que se dedicam à compra e venda de divisas na rua, transacionam um dólar a 390 kwanzas (1,32 euros), praticamente inalterada há quinze dias, sem acompanhar por isso a constante depreciação oficial da moeda angolana.

Com uma taxa de câmbio fixada esta semana após leilão de divisas pelo Banco Nacional de Angola (BNA) em 251,7 kwanzas para um dólar, uma depreciação acumulada de 34% desde o início do ano, o preço de rua da nota norte-americana está assim 55% acima do câmbio oficial, depois de já ter sido mais do triplo, até 2017.

O mesmo acontece com a moeda europeia e na mesma ronda realizada hoje, a Lusa encontrou o euro a ser transacionado na rua, igualmente em bairros como Maculusso, Mutamba ou São Paulo, em média, a 440 kwanzas (1,40 euros), ficando assim 50% acima do câmbio oficial, fixando esta semana nos 293,4 kwanzas por cada euro.

Na cotação oficial, o kwanza angolano já acumulou uma perda de 37% nos seis meses do regime flutuante cambial, em que as taxas de câmbio são formadas nos leilões de divisas e a moeda europeia passou a ser a referência para Angola.

“Sem qualquer desprimor para o mérito, certo é que, em dezembro de 2017, o kwanza estava entre as quatro moedas mais sobrevalorizadas do mundo, ante um cenário de acelerada degradação das reservas internacionais e de acumulação de responsabilidades perante o exterior”, reconheceu, no final de junho, o governador do banco central angolano, José de Lima Massano.

A falta de kwanzas no mercado é a explicação apontada por todas as ‘kinguilas’ para a manutenção prolongada da cotação do dólar e do euro nas ruas, resultando, devido à retirada de moeda de circulação física, numa valorização da moeda angolana.
Na prática, e apesar de continuar escassa a quantidade de divisas nos bancos, o preço no mercado paralelo não dispara, como aconteceu em anos anteriores.

A retirada de dinheiro de circulação física tem sido uma medida adotada pelo BNA para conter a escalada da cotação do euro e do dólar no mercado informal, alternativo, embora ilegal e a preços especulativos, para angolanos e expatriados que não conseguem comprar divisas aos balcões dos bancos, face à crise cambial.

No modelo cambial anterior, até 09 de janeiro, a cotação era fixada diretamente pelo BNA, com o kwanza indexado ao dólar norte-americano, tendo passado desde então a ser a moeda europeia a referência.

“Apesar de servir apenas como barómetro do andamento do mercado cambial formal, o diferencial entre o mercado formal e informal, ao atingir 150%, passou a ter impacto direto na formação de preços e no desenvolvimento intenso de soluções não convencionais de execução de pagamentos ao exterior, podendo colocar em causa não apenas os compromissos do país no quadro do combate ao branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, mas também a sanidade do sistema financeiro e a viabilidade de uma de economia de mercado que se quer regrada e com previsibilidade”, reconheceu o governador do BNA, a propósito das diferenças entre os dois mercados.

O responsável acrescentou que este novo regime cambial “não é em si a solução para todos os males” da economia angolana: “Na verdade, e como dizemos muitas vezes em gestão, não há modelos perfeitos, há os que funcionam. E, neste caso, devem funcionar em alinhamento com os objetivos de desenvolvimento económico constantes dos programas orientadores de governação”, disse ainda.

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