Cinco bancos concentram 95% do crédito malparado

Por Rúben Ramos

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O Relatório de Estabilidade Financeira de 2017, divulgado recentemente pelo Banco Nacional de Angola (BNA), indica que cinco bancos concentram 95% do crédito malparado de todo o sistema bancário. Segundo o documento, dos cinco bancos com os níveis de incumprimento mais elevados do sistema bancário, quatro são privados
Os bancos públicos registaram o maior nível de incumprimento, com 81,49% do total de crédito vencido do sistema, seguidos dos bancos privados nacionais, com 17,28%, e dos bancos privados estrangeiros, com 1,23%.

As empresas privadas detêm maior nível de incumprimento (87,85%) , que aumentou 29,53% face a 2016. Segundo o relatório, atendendo à aversão das instituições financeiras bancárias ao risco de crédito, continua a observar-se um movimento declinante do crédito, dando-se maior preferência aos títulos de dívida pública, por serem títulos de elevada liquidez e rentabilidade assegurada.

O economista Wilson Chimoco aponta os constrangimentos macroeconómicos como a principal causa do aumento do crédito vencido malparado registado no final do exercício económico de 2017. “A capacidade dos devedores para honrarem as suas obrigações junto do sector bancário é fortemente condicionada pelo rendimento disponível. Nos últimos anos, em virtude dos constrangimentos macroeconómicos, o rendimento das famílias e das empresas foi drasticamente afectado. Há razões de preocupação, porque o crédito malparado constitui um risco para o normal funcionamento do sistema bancário”, analisa.

Um especialista ligado ao sector bancário, que prefere o anonimato, destaca a concentração do crédito num número muito reduzido de clientes ou sectores da actividade económica, o aumento das taxas de juro reais, a presença acentuada do Estado na economia, bem como a queda do preço do barril de petróleo no mercado internacional, que contribuiu para o aumento das taxas de incumprimento.

“Em 2013, por exemplo, cada barril do petróleo custou, em média, cerca de 100,9 USD, e o crédito malparado, nesse ano, foi de 9,26% do crédito total. Em 2017, cada barril do petróleo foi vendido, em média, a 54,5 USD, e o crédito malparado nesse ano foi de 28,78% do crédito total. Existe uma correlação muito forte entre o preço do petróleo e o incumprimento de crédito registado, para além de se falar de um volume muito grande de crédito que foi concedido durante o período das ‘vacas gordas’, sem obedecer aos critérios de análise e avaliação de risco inerentes à actividade de concessão de crédito, porque, segundo o que dizem, ‘o País é rico’, como se nunca fosse afectado por crises económicas”, observa o especialista. Questionado sobre a qualidade de gestão dos activos, explica que, o que geralmente acontece é que muitos créditos não passam pelos analistas de crédito. “Muitos créditos que constam nos balanços dos bancos são uma oferta a clientes, sem nenhuma garantia, nem compromissos porque foram despachados pelos administradores ou porque foram contratados por pessoas com alguma afinidade com os responsáveis dos bancos e, como consequência, os aumentos brutais dos níveis de incumprimentos no crédito”, esclarece o especialista.

O economista Wilson Chimoco defende maior responsabilização na definição de critérios e condições de atribuição de créditos sob pena de elevarmos os índices de incumprimento. “Ninguém obtém um crédito sem passar por uma avaliação das capacidades e disponibilidade de honrar com as suas obrigações. E se os incumprimentos atingiram estes níveis, é porque não houve uma gestão rigorosa do seu processo de concessão”, avança.

Activos em queda

Os activos dos bancos registaram em 2017 o crescimento mais baixo dos últimos cinco anos, totalizando mais de 10,2 mil milhões Kz face aos 10,1 mil milhões Kz do período homólogo. Deste total, cerca de 35,37% foram aplicados em créditos, e 34,01% em títulos. Entretanto, os bancos têm revelado maior apetência por aplicações em títulos do Tesouro, dos quais 70,78% da carteira de títulos estava constituída por obrigações do Tesouro, e 28,97% em bilhetes do Tesouro. Entretanto, para o especialista anónimo, o aumento do activo total do sector bancário de 1,20% em 2017 é explicado pelo aumento do crédito ao Estado (13,57%), ou seja, uma maior percentagem do dinheiro, que seria canalizado para os sectores que produzem e que deviam criar empregos, foi para o Estado, porque, apesar de muitos bancos serem obrigados a canalizarem recursos para o financiamento do Estado, o crédito ao Estado possui menor risco e, consequentemente, não consome capital, diferentemente do crédito às empresas e a particulares. Recorde que o crédito malparado de todo o sistema bancário passou de 12,58% em Dezembro de 2016 para 28,78% em Dezembro de 2017.

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